quinta-feira, 6 de março de 2014

Aparência do Mal



«Abstende-vos de toda aparência do mal»
- I Aos Tessalonicenses 5:22


O contexto:
«14 Rogamos-vos também, irmãos, que admoesteis os desordeiros, consoleis os de pouco ânimo, sustenteis os fracos e sejais pacientes para com todos. 15 Vede que ninguém dê a outrem mal por mal, mas segui, sempre, o bem, tanto uns para com os outros como para com todos.
«16 Regozijai-vos sempre.
«17 Orai sem cessar.
«18 Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco.
«19 Não extingais o Espírito. 20 Não desprezeis as profecias. 21 Examinai tudo. Retende o bem. 22 Abstende-vos de toda aparência do mal.
«23 E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.
«24 Fiel é o que vos chama, o qual também o fará.»
- I aos Tessalonicenses 5


Há um certo constrangimento nos crentes quando têm de tomar determinadas decisões no seu quotidiano, designadamente o que devem vestir nesse dia, que penteado levar, que lugares frequentar, etc., etc., etc., com o receio de escandalizar alguém. Todos nós, certamente, já fomos confrontados com este tipo de questões e duvidas, por serem eventualmente passiveis de ser contestadas por outros crentes. Eu próprio, confesso, que na minha ignorância já pus em causa a espiritualidade de vários crentes por causa destas e outras coisas, com base neste e noutros textos bíblicos. Lamentavelmente, por não ter tido alguém capaz de me elucidar no entendimento correto do ensino e dispensação da graça de Deus aquando dos primeiros passos do meu crescimento espiritual.

A principal razão porque isso acontece é porque não há um correto conhecimento do teor da dispensação da graça de Deus – diga-se, do ensino da graça de Deus – e, do pouco conhecimento que há desse ensino, não há consistência, certeza e domínio de todos os seus aspetos, o que tem levado, ao longo da história das igrejas locais, há formação de uma mentalidade religiosa de cariz evangélico, formatando os crentes a essa aculturação religiosa, assente em sentimentalismos, suposições, pareceres pessoais e não na Pregação do Mistério. O resultado disso tem sido ver os crentes da graça debaixo de um jugo que todos admitem existir, mas que ninguém ousa fundamentar e garantir. Os evangélicos, assim como toda a cristandade em geral, à semelhança dos judeus, no tempo do Senhor, no seu zelo irracional e desconhecedor da Palavra de Deus, têm “construído” um conjunto de regas e modos de conduta que, na sua grande parte contrariam a natureza e o ensino da Palavra da Graça de Deus.

Um dos textos que tem sido usado para defender essa aculturação é, precisamente, o que apresentamos da Iª epístola de Paulo aos Tessalonicenses e que diz:

«Abstende-vos de toda aparência do mal» - I Tessalonicenses 5:22


Há muito tempo que este tipo de atitudes dos crentes e da cristandade em geral, que é acompanhada e corroborada com opiniões e pareceres pessoais e individuais, de pessoas que têm responsabilidade na chamada “obra de Deus” têm-me intrigado, uma vez que é um discurso que não parece estar em sintonia com o ensino e postura do Apóstolo Paulo, o qual Deus constituiu como o Mordomo da Casa da Graça de Deus, quer pelo ensino de que foi canal, quer pelo exemplo ou modelo que deixou, de como se deve viver segundo a graça de Deus. Por esse facto, tais circunstâncias levaram-me a examinar mais cuidadosamente este ensino à luz da Palavra de Deus, especialmente da Pregação do Mistério, e procurar entender o verdadeiro pensamento do Apóstolo Paulo e o que ele pretendeu dizer com as suas palavras.

O primeiro pensamento que nos pode surgir é um pensamento contraditório: porque é que o Senhor nos chamou para a liberdade e os ensinadores da Bíblia usam o texto sagrado para prender e manter assim os crentes, condicionando-os no seu pensamento e escravizando-os com incontáveis, mas inconsistentes e incoerentes, obrigações?

Outro pensamento que nos surge é o de confrontarmos este tipo de entendimento tradicional com as palavras e exemplos do Senhor Jesus Cristo e de Paulo, que nunca estiveram preocupados com a aparência, mas com a realidade das coisas, como seja: nunca tiveram problemas de curar no dia de Sábado, tocar em leprosos, comer com fariseus, com publicanos, ou com pecadores, de criticar e repreender os que se prestavam a isso, mesmo os discípulos, expulsar os vendilhões do templo, etc., etc., etc..

Ainda outro pensamento é o seguinte: se se trata de uma questão de aparência, qual é o critério que servirá de base para determinar determinada "aparência de mal"? A "aparência" de mal... e que mal? Que tipo de mal? Quem define o conceito de mal? É o mal abstracto? O mal Indefinido e incerto, entregue ao critério de mentes condicionadas pelo pecado? Quem define e ordena o padrão para entendermos o tipo de aparência? Ora, a única base fidedigna para identificarmos o mal é a Palavras de Deus. E, onde está ela na determinação desses conceitos? Que diz a Palavra de Deus sobre a "aparência"?


Como esse tipo de discurso intriga todo o crente maduro, com inteligência espiritual, quando confrontado com as diversas palavras do Apóstolo Paulo, quando diz:

«Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte» (Romanos 8:2);

«Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade» (II Coríntios 3:17);

«28b Porque a terra é do Senhor e toda a sua plenitude. 29 Digo, porém, a consciência, não a tua, mas a do outro. Pois por que há de a minha liberdade ser julgada pela consciência de outrem? 30 E, se eu com graça participo, por que sou blasfemado naquilo por que dou graças? 31 Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus» (I Coríntios 10).

«4 E isso por causa dos falsos irmãos que se tinham entremetido e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão; 5 aos quais, nem ainda por uma hora, cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós» (Gálatas 2);

«6 E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. 7 Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo. 8 Mas, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que por natureza não são deuses. 9 Mas agora, conhecendo a Deus ou, antes, sendo conhecidos de Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir? 10 Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. 11 Receio de vós que haja eu trabalhado em vão para convosco» (Gálatas 4);

«Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou e não torneis a meter-vos debaixo do jugo da servidão» (Idem, 5:1);

«Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis, então, da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pela caridade» (Idem, 5:13);

«16 Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, 17 que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo. 18 Ninguém vos domine a seu bel-prazer, com pretexto de humildade e culto dos anjos, metendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão, 19 e não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus. 20 Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, 21 tais como: não toques, não proves, não manuseies? 22 As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; 23 as quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum, senão para a satisfação da carne» (Colossenses 2).


Mais amplo que isto, diz o Mordomo aos criados da casa de Deus:

«Eu sei e estou persuadido, no Senhor Jesus, de que nenhuma coisa é de si mesma impura, salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura» (Romanos 14:14);

«13 Portanto, repreende-os severamente, para que sejam sãos na fé, 14 não dando ouvidos às fábulas judaicas, nem aos mandamentos de homens que se desviam da verdade. 15 Todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes, o seu entendimento e consciência estão contaminados. 16 Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda boa obra. 1 Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina» (Tito 1, 2);

«Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma» (1 Coríntios 6:12);

«Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam» (1 Coríntios 10:23);

«1 Mas o Espírito expressamente diz que, nos últimos tempos, apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios, 2 pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência, 3 proibindo o casamento e ordenando a abstinência dos manjares que Deus criou para os fiéis e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças; 4 porque toda criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ações de graças, 5 porque, pela palavra de Deus e pela oração, é santificada» (I Timóteo 4).

«7 E ouvi uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro! Mata e come. 8 Mas eu disse: De maneira nenhuma, Senhor; pois nunca em minha boca entrou coisa alguma comum ou imunda. 9 Mas a voz respondeu-me do céu segunda vez: Não chames tu comum ao que Deus purificou» (Atos 10).


Assim, se o Senhor nos chamou para a liberdade do Seu Filho, a propósito de quê a nossa liberdade deva estar condicionada aos pensamentos humanos e carnais? (que Paulo chama de rudimentos deste mundo… porque são critérios, razões e normas pertencentes a esta vida… carnais e mundanos).

Pois por que há de a minha liberdade ser julgada pela consciência de outrem?


Por isso, passaremos a estudar o texto sob várias perspectivas: (1) o sentido etimológico; (2) O sentido do contexto (3) Comentários e, depois (4) a conclusão e aplicação.




I.     SENTIDO ETIMOLÓGICO

Vejamos o texto no grego:



Há duas palavras que são as que dão sentido ao texto: o verbo “abster” e o substantivo “forma”. Vejamos o seu significado, sentido e uso na linguagem de Paulo:

Abster: Strong: 567 apecomai apechomai, voz média (reflexiva), de 568; verbo; Significado: 1) guardar-se, refrear-se, abster-se.

Textos onde ocorre a palavra:

«Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais <567> da prostituição» (I Tessalonicenses 4:3);

«Abstende-vos <567> de toda forma de mal» (Idem, 5:22);

«Que proíbem o casamento e exigem abstinência de <567> alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade» (I Timóteo 4:3);


Forma: Strong: 1491 eidov eidos, de 1492; TDNT-2:373,202; substantivo; Significado: 1) aparência externa ou exterior, forma; 2) gênero, tipo.

Há duas palavras gregas principais para forma: MORFE e SQUEMA. Ambas as duas significam forma e devem traduzir-se por forma na falta de outro termo na nossa língua. Mas não têm o mesmo significado. Morfe é a forma essencial de algo, que  jamais se altera; Squema é a forma externa que muda de tempo em tempo e de circunstância em circunstância. Por exemplo, a morfe essencial de cada homem está em sua humanidade: o facto de sua humanidade  é  constante  e  jamais muda;  mas  o  squema da pessoa — sua forma  externa — muda  continuamente.

Mas, a nossa palavra é diferente: eidos Eido Eido  (de Eidon ) e significa aquilo que se vê, como tipo, espécie ou padrão, como em Lucas 3:23Lucas 9:29João 5:37; II Coríntios 5:7. «Mas, se assim for tomada, não é a aparência, em oposição à realidade» (Milligan). «Os papiros dão vários exemplos de eido, designadamente o sentido de classe ou espécie e essa é a ideia que melhor se aplica aqui» (Robertson's Word Pictures of the New Testament). «Mas a palavra significa forma ou tipo» (Vincent's Word Studies), ou espécie.


Textos onde a palavra ocorre:

«Visto que andamos por fé e não pelo que vemos <1491>» (II Coríntios 5:7);

«Abstende-vos de toda forma <1491> de mal» (I Tessalonicenses 5:22).


«Aparência» não se refere a algo que é semelhante… mas que é igual e manifesta-se como tal. Em II aos Coríntios 5:7 o termo «aparência» é traduzido por “pelo que vemos” e em oposição ao que «não vemos», à «fé». Por isso, o apóstolo não está a dizer para abstermo-nos de coisas que são parecidas com o mal, mas ao mal que se manifesta nas suas diversas formas, ou seja, em todas as formas de mal.

Por tal razão, e parece espelhar melhor o sentido, a NVI transcreve da seguinte maneira:

«Abstende-vos de toda a forma de mal».

Bauer traduz o texto da seguinte forma: «Todo o tipo de mal»!


Se se referisse a algo semelhante ao mal, como a “aparência” do mal, teríamos de partir de um padrão que servisse de base. E, quem é que estabelece o padrão? A nossa mente, os nossos conceitos? O nosso entendimento humano e carnal? Como Paulo refere: a nossa carnal compreensão…! Não ligada à cabeça…! Claro que, o padrão tem de ser estabelecido por Deus e está estabelecido pela Sua Palavra. Por isso o contexto vem a falar das “profecias” e para evitar o mal que lá está identificado.

Para reforçar esta ideia temos a utilização da palavra “abster-se”. Abster-se não é “evitar”, como se tratando de algo permissível. Abster-se é cortar total e radicalmente. Vejamos a utilização da mesma palavra nesta epístola no capítulo 3:4 - «Abster-se da prostituição…» ou seja, não é evitar mas cortar radicalmente!



Versões Paralelas

Nova Versão Internacional: «Rejeitai todo o tipo de mal»;
Nova Tradução: «Ficai longe de todo tipo de mal»;
Inglês Standard Versão: «Abstende-vos de toda a forma de mal»;
New American Standard Bible: «Abstende-vos de toda a forma de mal»;
King James Bible: «Abstende-vos de toda a aparência do mal»;
Holman Christian Standard Bible: «Ficai longe de todo tipo de mal»;
Versão Norma: «Mantende-vos afastados de todo o tipo de mal»;
NET Bíblia: «Ficai longe de toda a forma de mal»;
Aramaico Bíblia Inglesa: «Fugi de cada questão do mal»;
PALAVRA DE DEUS ® Tradução: «Mantenham-se longe de todo tipo de mal»;
Bíblia Jubileu 2000: «Apartai-vos de toda a aparência do mal»;
King James Bible 2000: «Abstende-vos de toda a aparência do mal»;
Americana King James Version: «Abstenção de toda a aparência do mal»;
Versão Americana Padrão: «Abstende-vos de toda a forma de mal»;
Douay-Rheims Bíblia: «De toda a aparência do mal abstende-vos»;
Bíblia Sagrada: «Mantenham-se afastados de toda a forma de maldade»;
Versão Inglesa Revisada: «Abstende-vos de toda forma de mal»;
Tradução da Bíblia Webster: «Abstenção de toda a aparência do mal»;
Weymouth Novo Testamento: «Mantenham-se afastados de toda forma de mal»;
Mundo Inglês Bíblia: «Abstende-vos de toda a forma de mal»;
Tradução Literal de Young: «De toda a aparência do mal abstende-vos».






II.   CONTEXTO:
O verdadeiro sentido das palavras do Apóstolo parece estar no contexto, senão vejamos:

«15 Vede que ninguém dê a outrem mal <2556> por mal <2556>, mas segui, sempre, o bem, tanto uns para com os outros como para com todos».

«19 Não extingais o Espírito. 20 Não desprezeis as profecias. 21 Examinai tudo. Retende o bem. 22 Abstende-vos de toda aparência do mal».

«23 E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo».


Cito o versículo 15 para mostrarmos o sentido que temos do «mal». E apresentamos alguns textos paralelos:

«Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem» (Romanos 12:9);

«Não torneis a ninguém mal <2556> por mal <2556>; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens» (Idem, v. 17);

«Não te deixes vencer do mal <2556>, mas vence o mal <2556> com o bem» (Idem, v. 21).


O “mal” do versículo 15 é diferente do “mal” do versículo 22 – no V. 15 o “mal” é de natureza má; a origem do “mal” do versículo 22 é fraqueza, com raiz em “pobreza”, e derivado de algo mau, doente, fraco! Ou seja, pode ser muito bem a referência a “fraquezas”!

A exortação parece iniciar-se com a frase: «Não extinguíeis o Espírito». Normalmente se aplica à pessoa do Espírito Santo como se fosse possível extinguir a Deus! O apóstolo está a referir-se à manifestação do Espírito e, essa sim, pode ser extinta pelos crentes. E, a manifestação do Espírito é exclusivamente a Palavra que Ele revelou a Paulo acerca do “Mistério”, como a revelação do programo Profético aos profetas, que têm o mesmo nível de inspiração, nas palavras do Apóstolo Pedro (II Pedro 3:15-16… “demais escrituras…”).

Uma das formas que o crente extingue o Espírito é não dar atenção à Palavra de Deus, especialmente à revelada ao Apostolo Paulo (Efésios 3:4-5), mas também às escrituras dos profetas. Paulo fez muitas referências aos textos dos profetas, mas de forma sábia: não quer dizer que tenha a ver com algum cumprimento no presente período da graça, mas com aplicações práticas que pode ser usada em qualquer período ou época, como Paulo diz:

«Porque tudo que dantes foi escrito para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança» (Romanos 15:4);

«11 Ora, tudo isso lhes sobreveio como figuras, e estão escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os fins dos séculos. 12 Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia» (I Coríntios 10);

«16 Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça, 17 para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra» (II Timóteo 3).


A exortação do nosso texto está em linha com o estilo e linguagem do Apóstolo, designadamente na dicotomia bem/mal, já exemplificado nos textos citados de Romanos 12:9, 17 e 21, e do versículo 15 deste capítulo.

 E, nessa linha diz:
«Não extingais o Espírito, não desprezando as profecias: examinai tudo (das profecias), retende o bem e evitai todas as manifestações do mal, ou manifestações de fraquezas».


  


III. COMENTÁRIOS:

O contexto, no entanto, não se refere às aparências do mal em nós mesmos que nos devemos abster, mas para mantermo-nos afastados de toda a aparência do mal nos outros, como por exemplo, de acordo com o contexto, das profecias de inspiração duvidosa. Em muitos casos, o cristão não deve abster-se do que tem a aparência ("aspeto") do mal, apesar de ser bom. O Senhor Jesus Cristo curava ao sábado, e comeu com (fariseus) publicanos e pecadores, praticou atos que apresentavam alguma aparência de maldade, mas não foram motivo para se abster deles porque o Senhor via neles um bom propósito.

Ou seja, o Senhor via muito mais além que os discípulos ou os religiosos do seu tempo que o criticavam! (VPP).


Abster-se de toda a aparência do mal . Este versículo está ligado com o anterior, e repete negativamente o que lá é dito positivamente.

21 Examinai tudo. Retende o bem. 22 Abstende-vos de toda aparência do mal.

Ou seja:
«Testai as declarações dos profetas; mantende o bom, e rejeitai o mal».

A palavra traduzida por "aparência" tem tido diferentes usos; denota forma, figura, espécie, tipo, modo como algo deve ser apresentado.

"Abster-se de toda forma de mal" (RV) ou "do mal" a palavra tem de ser um substantivo abstrato. Toda a exortação é semelhante à que é feita em Romanos 12:9:

«Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem».

Onde há uma declaração negativa que é colocada em primeiro lugar.



Vincent's Word Studies

Aparência (εἰδους)
Tal como comumente é explicado, abster-se de tudo o que parece mal. Mas a palavra significa forma ou tipo. Comparar com Lucas 3:22 e João 5:37, e ver quase a mesma frase em Josefo, em Antiguidades 10:03, 1. Ela nunca tem o sentido de semelhança. Além disso, é impossível de se abster de tudo o que se parece com o mal.

Do mal (πονηρου)
O termo deve ser tomado como um substantivo, não como um adjetivo concordando com εἰδους forma (de todas as formas do mal). O significado de πονηρος no NT não pode ser limitada ao mal ativo, prejuízo, embora, muitas vezes, tem esse sentido. O mesmo é verdadeiro na LXX, onde às vezes significa má vontade ou ser mesquinho. Veja Sir. 14:04, 5; 34:23.


Robertson's Word Pictures of the New Testament
«Abster-se de toda forma de mal  (apo panto eidou ponhrou apecesqe). O verbo está no presente, em voz média, (direto) do imperativo de ap-echö  (contraste com kat- echö) e a preposição apo é empregue no ablativo como em 1 Tessalonicenses 4:3. Nota-se o uso ampliado de ponhrou ponhrou: “mal”. Aqui, o substantivo está sem o artigo, que no idioma grego é muito comum.

Eido Eido  (deriva de Eidon ) e significa olhar a aparência como em Lucas 3:23Lucas 9:29João 5:37; II Coríntios 5:7. «Mas, se assim for tomada, não é a aparência, em oposição à realidade» (Milligan). Os papiros dão vários exemplos de eido no sentido de classe ou espécie e essa é a ideia que melhor se aplica aqui. O mal tinha uma maneira de infiltrar-se, inclusivamente nas manifestações espirituais, incluindo a profecia.





IV.            CONCLUSÃO E APLICAÇÃO

Face ao que foi considerado, perguntamo-nos como é possível os ensinadores da Bíblia usarem as Escrituras Sagradas sem critério, sem certezas e sem convicções, substituindo-se a Deus e à Sua Palavra para conduzirem os crentes a seu bel prazer, e leva-los a crerem em coisas que nunca passou pela mente de Deus?

Este é um exemplo do que é “uma carnal compreensão” das coisas de Deus e dos efeitos nefastos que tal compreensão e a sua aplicação pode fazer na vida dos crentes. Especialmente, tal compreensão e aplicação rouba a alegria espiritual que é transmitida pela liberdade da Palavra de Deus e acorrenta-os a um tipo de vida deprimente de incertezas, insatisfação, melancolia e insegurança, como é a vida assente na aparência das obrigações. Oposta a isso é a vida cristã verdadeira, assente na graça de Deus, de alegria, tranquilidade, livre de obrigações e preconceitos, já que não assenta no que tem que fazem, ou porque se sente obrigado a fazer, mas é assente na graça de Deus, naquilo que o Senhor Jesus Cristo fez e na vida que o Espírito Santos flui em nós pelo conhecimento da Sua Palavra.

Paulo diz:
«Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis, então, da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pela caridade» (Gálatas 5:13);


Assim, Paulo não está a falar daquilo que é aparente, mas daquilo que é e real, ou seja: não significa nada da aparência; o que é importante é a realidade.  E, Paulo não está a falar das coisas que parecem mal, mas do próprio mal e das suas formas de manifestação ou dos vários tipos de mal. E, esse mal, está perfeitamente definido na Palavra de Deus, não obedece a critérios humanos e carnais, nem está sujeito a juízos de pessoas que nada têm de "obreiros aprovados" ou sejam recomendáveis, mas, repita-se, está caracterizado na Palavra de Deus.


A nossa liberdade espiritual permite que vivamos, mesmo, segundo a Lei, ou debaixo de qualquer lei ou obrigação; nada nos impede disso: Estamos completos em Cristo e nada altera a nossa posição aos olhos de Deus. Nada do que façamos nos melhora diante de Deus, nem nada do que não façamos nos condiciona diante de Deus. No entanto, será uma verdadeira estupides e desconsideração para com Deus, quando termos sido resgatado por Ele de todo o tipo de escravidão e obrigações – as quais nos condicionavam e nos condenavam diante de Deus, e nós, mesmo assim, insistimos em viver dessa maneira deprimida e deprimente! Depois de libertados por Deus e de sermos constituídos filhos (não mais como servos), ou seja, considerados e tratados por Deus como “filhos adultos”, maduros, será uma estupides e uma irracionalidade não andar como tal, ou seja, também, como adultos e maduros, como sábios e entendidos. E, esse comportamento pode dever-se a várias causas: (1) desconhecimento das instruções do Pai para os seus filhos adultos, e, por isso, vivem como crianças; (2) terem conhecimento, mas serem negligentes nesse conhecimento e insistirem em viver como meninos e servos; (3) serem filhos reveldes, pois podem revelar ter esse conhecimento mas insistem em viver de forma diversa e oposta ao padrão da graça instituído por Deus!

Por outro lado, se somos conhecedores da revelação da Palavra de Deus, a propósito de quê sermos julgados por crentes fracos, negligentes e ignorantes por opção, quando não, em muitas situações, até são reveldes. É verdade que devemos evitar escandalizar os crentes mais fracos, mas naquilo que servir para sua edificação, e não mudar de postura por mudar. Ceder a certas pressões carnais e fruto de compreensões carnais poder ser perigoso por estamos a por em causa a nossa fé e a verdade do Evangelho, como o próprio Apóstolo Paulo refere:

«4 E isso por causa dos falsos irmãos que se tinham entremetido e secretamente entraram a espiar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus, para nos porem em servidão; 5 aos quais, nem ainda por uma hora, cedemos com sujeição, para que a verdade do evangelho permanecesse entre vós» (Gálatas 2);


Pelo contrário, este mesmo facto levou que o Apóstolo Paulo repreendesse ao Apóstolo Pedro por estar a por em causa a “verdade do Evangelho” (v. 14).

«Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros» (Romanos 14:19);

«Portanto, cada um de nós agrade ao seu próximo no que é bom para edificação» (Romanos 15:2);

«Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo» (Efésios 4:12).

A essência dos factos é que as coisas são impuras para aqueles que são, em si mesmos, impuros, com mente e mentalidade impuras, contaminadas e cauterizadas, e querem condicionar a vida dos outros à sua mente causticada, como aconteceu com os crentes de Creta, de Roma, de Colossos, e outros, aos quais o Apóstolo Paulo repreende.

Não faz qualquer sentido andar com discursos deprimentes e intimidantes sobre os crentes. Esse é o método dos obreiros, pastores e ensinadores bíblicos intelectualmente inábeis, ociosos e reprováveis. É muito mais fácil manter os crentes subjugados na ignorância, com sentimentalismos e emoções instáveis e enganadoras… do que instruí-los na verdade e torna-los capazes de andarem na mesma verdade e saberem (dominarem) os fundamentos dessa verdade! Como é verdade que esses métodos mantêm os crentes numa aparente disciplina espiritual, mas isso, não passa de aparência e, por isso, de carnalidade (Colossenses 2: 16-23). Além disso, esse tipo de métodos não requer dos líderes grande esforço no estudo da Palavra de Deus e no domínio das verdades e dos conceitos fundamentais da graça de Deus; é mais fácil ocupar os crentes com poemas, com músicas, com eventos, com convívios; é mais fácil ir à NET “sacar” umas mensagens de lideres religiosos de "sucesso", tipo Rick Worran ou Billy Graham, ou outros da mesma linha liberal, que procuram mais conquistar “massas” (números) que a “edificação do corpo de Cristo”, e valorizam mais o esforço e a responsabilidade humana que a graça de Deus. Infelizmente, “as suas palavras” (mensagens, pregações e supostos estudos) falam por si e os denunciam!

Por outro lado, a vida caracterizada por maturidade espiritual, assente no conhecimento da revelação do Mistério, e por isso estar ligado (em sintonia) com a cabeça do Corpo, é uma vida que exige muito trabalho, esforço, dedicação, renúncia e muita oposição… que, em grande parte, acaba com isolamento – como aconteceu com Jesus Cristo, como Senhor e com Paulo, como seu mordomo! Por um lado, a vida da aparência, é mais fácil, mais "animada", mais emotiva, e tem mais seguidores porque, para os ensinadores, não requer muito esforço e o preço a pagar é baixo; para os fiéis, por sua vez, são mantidos mais disciplinados e dedicados, aparentemente, entretidos com discursos sentimentalistas e emotivos, que é aquilo de que a carne gosta! Mas essa é a sua recompensa e glória!

Para aqueles que andam segundo a aparência a vida cristã limita-se ao que um come ou bebe, ou o que veste, ao corte e à cor do cabelo, às unhas, pestanas, lábios, ao tempo que usa, às férias que faz ou não faz, ao número de reuniões que frequenta (mesmo que a Palavra de Deus não seja honesta e corretamente anunciada – como se a Igreja fosse um clube!), e não numa vida de conhecimento de Deus. Tudo isso não passa de madeira, feno e palha!

Para concluir, e seguindo a linha do pensamento do parágrafo anterior, resta dizer que não faz sentido privarmo-nos de uma vida sã, honesta, libre e descomprometida de pressões carnais e humanas, assente na Palavra de Deus, segundo a revelação da graça de Deus; e muito menos sentido faz, querer servir-se da Palavra de Deus para – torcendo-a às suas conveniências e da sua mentalidade carnal – criticar, julgar e privar outros crentes da sua liberdade espiritual! O Senhor os recebeu por seu! Nós, devemos respeitá-los e recebe-los da mesma maneira (Romanos 14:1-3), mas não ceder nem por uma hora, para que a verdade do Evangelho, assente na liberdade, seja posta em causa (Gálatas 2:4-5).


A postura cristã correta é só uma:

«11 E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, 12 querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo, 13 até que todos cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, 14 para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo vento de doutrina, pelo engano dos homens que, com astúcia, enganam fraudulosamente. 15 Antes, seguindo a verdade em caridade, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo…» (Efésios 4).

Ou seja, andar como adultos e, aquilo que considerarmos que podemos fazer e viver, devemos fazê-lo, sem qualquer constrangimento de sermos julgados por pensamentos humanos.

Por outro lado, tenhamos bem consciência de que todas as coisas serão apresentadas no Tribunal de Cristo, e, antão, sim, o modelo espiritual de Deus será exibido e, aqueles que assim viverem serão coroados!

«Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo» (Romanos 14:10);

«3 Todavia, a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós ou por algum juízo humano; nem eu tampouco a mim mesmo me julgo. 4 Porque em nada me sinto culpado; mas nem por isso me considero justificado, pois quem me julga é o Senhor. 5 Portanto, nada julgueis antes de tempo, até que o Senhor venha, o qual também trará à luz as coisas ocultas das trevas e manifestará os desígnios dos corações; e, então, cada um receberá de Deus o louvor» (I Coríntios 4).


A graça de Deus e o Deus de toda a graça seja com o vosso espírito.

Vítor Pereira do Paço

2 comentários:

  1. Gostaria de sublinhar este trecho da conclusão:
    A nossa liberdade espiritual permite que vivamos, mesmo, segundo a Lei, ou debaixo de qualquer lei ou obrigação; nada nos impede disso: Estamos completos em Cristo e nada altera a nossa posição aos olhos de Deus. Nada do que façamos nos melhora diante de Deus, nem nada do que não façamos nos condiciona diante de Deus.

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  2. ...todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes, o seu entendimento e consciência estão contaminados... a essência dos fatos é que as coisas são impuras para aqueles que são, em si mesmos, impuros, com mente e mentalidade impuras, contaminadas e cauterizadas, e querem condicionar a vida dos outros à sua mente causticada... andar como adultos e, aquilo que considerarmos que podemos fazer e viver, devemos fazê-lo, sem qualquer constrangimento de sermos julgados por pensamentos humanos... o que é importante é a realidade...
    Amei..! Parabéns!

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